Critiques

Tartiufas, le grotesque du grotesque.

Evelise Mendes – 18 juillet 2018

Durant presque 2 heures, Oskaras Korsunovas et son équipe mettent à l’envers la pièce Tartuffe. En fait, le texte de Molière se révèle juste un prétexte pour faire la critique de la société du spectacle…


Peut-être que le verbe de cette mise en scène est le « il y a »… Il y a de la musique, il y a de la projection, il y a un dispositif scénographique très intéressant, il y a des jeux d’acteurs exagérés, il y a des cris, il y a des références au monde pop, il y a enfin beaucoup de choses… Une excessivité de recours et de références qui nous fatigue, qui nous réveille, qui nous fait rire, qui nous gêne. Tartiufas s’inscrit en définitive dans la tradition du grotesque de Meyerhold : c’est ainsi que Korsunovas met en pratique son miroir déformant de la classe moyenne occidentale, une bourgeoisie qui a été toujours bienfaisante ; à ce que Brecht disait : « la chienne qui a produit guerre et fascisme est plus que jamais en chaleur »…

Le texte de Molière devient alors un simple prétexte pour déployer une critique acide, à laquelle le Festival d’Avignon et ses spectateurs n’échappent pas non plus. À un moment donné, par exemple, un des comédiens réclame de façon légèrement moqueuse la valeur de la « Culture, culture, culture… ». Oui, pendant qu’on se bat pour les valeurs d’une « culture, culture, culture, bla-bla-bla… »… pendant qu’on attend la fidélité à la dramaturgie de Molière, le respect au public, etc… pendant tout cela, la chienne est en train de mettre bat des chiots fascistes.

(la suite en portugais)

Assim, damos de cara com um labirinto verde (composto de grama) em cena : um dispositivo cenográfico interessantíssimo (levemente inclinado em direção ao público) do qual os atores exploram ao máximo todas suas possibilidades. Há também uma grande tela para a projeção, por onde podemos ver os bastidores filmados na sua maioria em tempo real. Na verdade há também muitas outras coisas em cena : há um teclado ao vivo, há músicas de fundo, há cantorias, há objetos que aparecem e desaparecem no meio do labirinto, há contracenações quase clownescos, há atuações exageradas, há gritarias, há referências diretas a essa dependência às redes sociais, enfim talvez o verbo desta encenaçao seja o « haver ». Há um excesso de referências e de recursos que vemos em cena. Esse excesso de « haver » pode ser cansativo… E ele pode fazer com que a encenação se torne irregular… Há cenas que nos prendem, que nos fazem rir, que nos fazem « embasbacar », e há outras cenas que nos deixam sonolentos, que nos cansam… Independente de toda essa excessividade criativa, não se pode dizer que Tartiufas nos deixe alheios a ele. Ele não nos deixa isentos porque há algo de extremamente estranho que se desenvolve diante nossos olhos…

Através do « grotesco » de Meyerhold (o qual é por excelência a junção de contrastes), Korsunovas coloca em pratica o espelho deformante onde a classe média alta e a elite ocidental se revelam gradativamente enviesadas… Nada escapa da crítica feroz dessa encenação, e isso inclui o Festival de Avignon, seus espectadores, etc. Em certo momento, por exemplo, um dos atores reclama em tom levemente irônico o valor da « cultura, cultura, cultura »… Uma reclamação de fidelidade à « cultura, cultura, cultura, blá-blá-blá » que muitas vezes se contrapõe ao momento político-social extremamente tenso que estamos vivendo à uma escala global.

Em consequência, a peça Tartufo de Molière se revela tão somente uma desculpa para o desenvolvimento de uma concepção crítica da sociedade contemporânea – o que o torna uma verdadeira armadilha para aqueles espectadores que esparavam uma fidelidade ao texto.

Ora, a trama se desenrola em meio ao labirinto verde. Através uma dinâmica cênica que às vezes remete ao teatro de variedades, outras vezes ao jogo palhacesco, por fim ao grotesco bufonesco, o público é levado às gargalhadas em diversos momentos… Até o momento que nos damos conta que todos caímos na armadilha : de um lado os personagens do Tartufo de Molière, do outro lado nós como público… Uma armadilha que termina com o personagem Tartufo despejando os outros personagens do labirinto-mansão (nos remetendo a uma situação de golpe de estado na esfera íntima), até que sua figura se torna (através o jogo corporal) um ditador … Assim, vemos ao final um ditador em cena, e vemos um labirinto verde transformado em lugar asséptico, sem vida… Uma leitura talvez pessimista do futuro, mas que serve também como grito de alerta para o que Brecht já dizia : « A cadela do fascismo está sempre no cio »…


18 juillet 2018

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Je suis obsédé par l’insensé, je suis obsédé par la multiplicité.
Didier-Georges Gabily

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